2.08.2014

s/ título #2


Sem Título #2. Hugo Nascimento, 2013 --- > das experiências em fotografia construída, manipulações e interferências laboratoriais.

5.16.2013

Sais de Prata Potosí


A invenção da fotografia européia como resultado da exploração da prata latino-americana





“A Espanha tinha a vaca mais os outros tomavam o leite” ... o filho criado a leite de prata latino era inglês, mas a prata que chegava a Inglaterra, também chegava aos negociantes de escravos franceses, não sem antes passar por Portugal e principalmente Espanha.“Dizem que até as ferraduras dos cavalos eram de prata no auge da cidade de Potosí” ... “a cidade que mais deu ao mundo é a que menos tem”, hoje Potosí é uma pobre cidade da pobre Bolívia... 1826, decadência do ciclo de prata na América latina, invenção da fotografia européia... que se hoje é mundial, é por pura capacidade antropofágica dos povos colonizados, e claro, em virtude da mudança do eixo financeiro da Europa para os cofres estado-unidenses ... mas quando olhamos para traz o primeiro fotógrafo moderno em terras tupiniquins continua sendo o francês Pierre Verger e a primeira fotografia ainda é, e provavelmente sempre será de Niépce... não se trata aqui de recuperar a autoria de uma invenção que se é nossa - nem acho que seja - não temos como provar a não ser na autoria ficcional de Melquíades - cigano-louco-inventor que viveu alguns anos entre idas e vindas em Macondo - trata-se antes de lembrar que a fotografia, assim como toda a arte não é hermética, e que para existir, para ser experimentada, testada, difundida e sobretudo comercializada diversas linhas de força operam de acordo com múltiplas subjetividades, interesses e afetos... muito aconteceu ao longo desses quase 200 anos, essa trajetória e todos os seus desdobramentos o mundo da arte não deve ignorar. A arte dos artistas que são indiferentes ao que está fora trata do que? Da forma? Mas Mondrian já não tinha encerrado essa discussão?

“A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema”

As Veias Abertas da América Latina – Eduardo Galeano
O Ato Fotográfico – Phillip Dubois
Cem Anos de Solidão – Garcia Marquez

*esse trabalho foi realizado em 2012, a partir de experimentos realizados no Museu da Imagem e do Som, possíveis a partir da parceria com o Coletivo Câmera Aberta. Neste mesmo ano integrou a mostra Primeiros Passos no Centro Cultural Brasil Estados Unidos. O que não deixa de ser cômico.

12.17.2012

Quando(.)(?)(!)


de elton galdino e yuri barros
ft luana peixe


O quando horizonte precário encantador no qual não posso tocar me atinge a vista. Ativa a consciência. A inconsciência. O racional e o delírio. Linhas de fuga diversas convergem e divergem nos rascunhos da memória. Atravessam a imaginação. Deságuam no futuro. No futuro que não chega. Refém de um tempo que não passa nunca porque passa sempre¹. O quando nunca chega. É a representação de um horizonte decadente do qual a humanidade retrograda não consegue se desprender para viver o agora. E agora? José. Não! Elton. Yuri. Eu. Seguirei falando até quando não mais poder. Até aquele momento no qual estarei mudo e mais nada². Quando a crítica de arte abdicar de sua enorme pretensão e prepotência, há de pousar sobre nós a leveza das bacantes. Afogaremos o mau humor na suave embriagez dionísica, e talvez, quem sabe, absorveremos a crítica como um complemento que não fecha estrutura alguma, mas adiciona, na formula deleuziana do e... e... e... onde cada ponto de vista cria apenas mais um desdobramento possível. Todos os desdobramentos são válidos, desde que sejam verdadeiros, comprometidos com a verdade, ou com a mentira, se for este o caso. A mentira é acreditar que esperar pelo quando é acertar o passo ao paraíso! A verdade é a relação estética com o mundo, e para além disso, todas os contornos são incertos e ao mesmo tempo legítimos. Todas as falas são válidas. O que é arte o que não é pouco importa. Quando a humanidade abdicar da pretensiosa tarefa de descobrir e disseminar a verdade na cabeça dos homens, teremos dado um passo para o fim das estruturas hierarquizadas de poder. A arte tem esse poder destrutivo justamente por ser inapreensível. Por inventar o modo de fazer no próprio processo de feitura³, por ser a obra uma mensagem estética, portanto aberta, de reverberações singulares em cada individuo-múltiplo. Como cientifizar isso? Como extrair uma verdade de uma relação desse tipo? A única verdade é a matéria decadente, a apropriação de materiais residuais, como se de alguma maneira os que falam através do quando antecipassem o apocalipse para o qual caminhamos de mãos dadas, ou melhor, atadas, comprando, vendendo, competindo, destruindo e gozando, com objetos fetichizados cujo valor é extraído ao longo de um processo predatório, ambiental e humano. Como se os que falam através do quando, soubessem que no futuro não muito distante as sucatas serão os objetos de fetiche. De fetiche ou de necessidade, caso o fetiche tenha desaparecido desse plano restando apenas a sobrevivência. Esse quando precário projetado ao mesmo tempo sobre os meus olhos e imaginação me eleva, me suspende para outro tempo. Tempo estético. Duração. Pessoal. Indivisível. Qualitativa. Esse quando que interfere no espaço vago, de uma instituição fraca e morna, que repele o próprio pensar, tem um pouco do que toda arte deveria ter: terrorismo. Confronto!

14.11.2012 hug nasc

txt entregue a disciplina de Teoria e Crítica de arte, ministrada pelo Prof Doutor Luizan Pinheiro


OK, Me Rendo




     A obra proposta é indissociável do processo que me trouxe até aqui. Em 2010 começei a pesquisar as relações homem x aparelho lançadas por Flusser. Como alforriar o homem da máquina? Como modelar o aparelho ao uso humano e não o contrário? Ir para além da programação. Em 2010 desenvolvi a Série Contra-Aparelho constituída por diversas fotografias construídas a partir de sobreposições possíveis a partir da rebobinação da película e da queimada do fotograma em dois tempos de 50% cada. O resultado são imagens inteiras construídas por duas metades, por duas tomadas, a partir de uma metodologia que vai para fora  da programação prevista na minha então Zenit DF300. Em 2011, materializei a instalação Homem Dentro do Aparelho se Fotografa, que integrou a XX Mostra CCBEU Primeiros Passos. A obra é constituída de 20 fotogramas que compõe uma unidade onde surgi um homem em posição fetal. Este homem sou eu, e os fotogramas gravam um auto retrato. Eu, por mim mesmo, na metáfora aberta e possível do aparelho fotográfico moderno, a sala preta do laboratório, uma luz incandescente e superfícies foto-sensíveis.
    Ambas experiências citadas se inserem num jogo contra aparelho, contra a tecno-ciência dominante, esmagadora das poéticas marginais terceiro mundistas, e que muito provavelmente, tem sido o fator que tornou a fotografia a boneca dos olhos dos salões e da arte contemporânea. Falo aqui de mercado, da tecnologia fetichizada com o único objetivo de aceleração do ritmo de consumo, da geração de mais valia. Há que se vender novos aparelhos. Essas duas poéticas citadas tratam, a partir de um retorno, da subversão, da não aceitação do ato fotográfico como jogo puro e simplesmente, onde o único objetivo é o esgotamento da programação do aparelho-máquina. O trabalho aqui proposto é diferente. Ele nasce nesse processo ao mesmo tempo que propõe um encerramento simbólico aquilo que não tem fim. Talvez uma trégua. Possivelmente uma homenagem. Uma Ode ao cubo mágico que tanto me faz pensar. OK, Me Rendo, Dom Quixote cansou de lutar contra os moinhos. Vai lutar agora em outras trincheiras, nessa, na trincheira do campo da arte, dos salões, das galerias, me retiro. “Mas não deixo de querer conquistar, uma coisa qualquer em você...”.
    O que será é o que é. Esta instalação é composta por 9 fotografias digitais produzidas a partir da conhecida, aclamada e já batida técnica “light Paint” ou pintura de luz, popularizada justamente a partir destes aparelhos injetados no contemporâneo pela tecno-ciência. É uma técnica que se não surgiu com a tecnologia digital, ganhou nome e corpo a partir dela. Muito se fez, talvez pouco tenha se pensado. Longe de esgotar a questão, tento me aproximar ou afastar de um possível problema. Tal técnica é filha da câmera fotográfica digital, e é dela, ou melhor, dele, do aparelho fotográfico contemporâneo que falo por meio da sua técnica mais particular, talvez a mais nova, sem dúvida a mais cool.

hug 10.04.2012

Esta obra integrou a 4ª ed do Salão SESC Universitário de Arte Contemporânea. 

11.29.2011


HOMEM DENTRO DO APARELHO SE FOTOGRAFA

“O cérebro eletrônico comanda / Manda e desmanda / Ele é quem manda / Mas ele não anda”
Gil, 1969

Relato Pessoal Nº1

...andei trabalhando em função do aparelho, não somente do aparelho mercadológico - sistema capitalista geo-referenciado, burgueses x proletários, “time is money”, luz, água, aluguel – como também, fotógrafo que sou, servindo ao aparelho fotográfico, e nesse sentido, sempre com muito esforço, buscando motivações nas demandas da vida para suportar tal condição servil. Até que re-li Flusser e voltei a pensar em uma possível alforria

(...)


PRÓlogo.POÉtico.TEÓrico

Pode-se dizer que a imagem fotográfica existe em potencia em cada aparelho fotográfico

Pode-se dizer também, que as imagens produzidas no interior do aparelho podem ser reproduzidas ao infinito.

Portanto, o aparelho fotográfico é um aparelho reprodutor em potencial

A imagem, enquanto potencia, é um feto,

[ser em processo de desvirtualização ]

A luz é o sopro divino. Queima os sais de prata. Recorta o indivisível, o ininterrupto.

Vida a mais uma fotografia,

Uma nova inscrição na duração.

Um novo ente.

Único.

1, 2, 3 Pré(supostos)

Segundo Barthez toda fotografia atesta o isto foi de algo. Pierce parece concordar ao classificar a imagem fotográfica como signo índice, bem como Schaeffer que defini a fotografia como impressão de traços do visível. A imagem fotográfica é portanto uma relíquia, um resquício do passado dobrado no presente. A fotografia existe na medida em que traz a tona o que não existe mais.

Breve direcionamento em 2 parágrafos

As imagens fotográficas que compõe esta instalação atestam e comprovam uma invasão, atestam e comprovam a presença do homem-invasor dentro do aparelho. Portanto tais imagens não se encerram em si mesmas, pois valem justamente na relação com o que está fora do quadro, com o extra campo, especificamente, na relação que possuem com seu próprio processo poético de feitura, do qual são registro fiel e verdadeiro.
É preciso que fique claro que este trabalho não pretende lançar o espectador a uma analise formal, presa a bi dimensionalidade que constitui as imagens que compõe a instalação, e sim elevar a fotografia ao campo do pensamento, sendo os aspectos formais uma plataforma de lançamento para uma discussão conceitual sobre a linguagem fotográfica e suas relações com as tecnologias industriais e humanas.

O Jogo ou O (Contra)Golpe

Somente um jogo verdadeiramente contra o aparelho será capaz de libertar o homem da condição servil na qual se encontra. Aqui pois, a primeira jogada é a eliminação da câmera.
O aparelho fotográfico [caixa escura com dispositivo que controla a entrada de luz a partir de um orifício oposto a um material foto-sensível; papel, película] foi violado. O homem que invade o aparelho abre um sistema aparentemente fechado. Joga para além da programação interna do dispositivo, conquista alforria, molda o aparelho, se insere nele, e de dentro se auto-retrata.
“No auto retrato...” segundo Denis Roche, “...uma foto com disparador automático... engloba de qualquer forma magicamente todo o tempo da operação... Como se o instantâneo tivesse captado o tempo bastante longo do enquadramento, o deslocamento... Tudo isso é captado...” Aqui, o tempo da operação é correspondente ao tempo da ocupação, entretanto aqui não há disparador, não a enquadramento, não há nem como enxergar dentro da caixa preta. O que o instantâneo capta é a própria ocupação humana, as movimentações do invasor.
A câmera escura em “homem dentro do aparelho” é a sala-preta-laboratório. Dois plugs, macho e fêmea, ativam o cordão elétrico-umbilical. A luz preenche a escuridão, queima os haletos de prata que deflagram em fotograma a presença do emissor. O referente aqui é o próprio homem, dentro de um espaço-tempo muito específico. O homem em uma impressão por travessia, entre a física/ótica e a química, entre uma luz incandescente e 20 papeis foto-sensibilizados. No lugar do Homo-faber, acorrentado a pressa cotidiana, surge o homo-ludens como terceiro elemento viabilizador da linguagem fotográfica. Jogando contra o aparelho. Jogando de dentro do aparelho.
O homem, ao entrar no aparelho elimina o quadro, o visor, a visão. A caixa preta é escura, e o tato é o sentido guia. O homem se choca com os sais de prata, deixa seu rastro a cada passo. Cada pegada deixa seu traço na superfície foto-sensível. O homem se deita nú, no útero escuro e calmo da fotografia e como um feto que toma conscientemente as rédeas em meio a uma sessão de ultrasonografia, o fotografo se auto-retrata, no útero da imagem fotográfica, na metáfora aberta e possível do aparelho fotográfico moderno. Uma sala escura, uma luz encandescente, uma extenção elétrica, 20 papeis foto-sensibilizados e o homem, com seus “botões de carne e osso”.

Notas à Gosto para Termos em Itálico

1. Enquanto possibilidade latente, na condição de vir-a-ser
2. Segundo Vilem Flusser em a Filosofia da Caixa Preta, aparelhos são produzidos, e seus produtores inscrevem uma programação que norteará seu funcionamento, bem como sua relação com o homem, “o estar programado é que o caracteriza” sendo as fotografias “realizações de algumas das potencialidades”
3. Walter Benjamim posiciona a fotografia como técnica determinante na instauração da reprodutibilidade técnica, tanto no campo da arte quanto da comunicação
4. Significa o mesmo que dizer ser em atualização que é “criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e finalidades, ou seja, é o processo no qual algo passa de potência a ato. “a arvore está virtualmente presente na semente”. Pierre Levy, em O que é o Virtual?
5. Indivisivel ai trata da duração, conceito bergsoniano exposto em seu livro Memória e Vida no qual o “estado é a própria mudança” e por tanto, o tempo não pode ser analisado quantitativamente, pois toda “fixidez não passa de um arranjo efêmero entre mobilidades”
6. Ininterrupto trata do devir como jorrar infinito e constante que empurra o passado roendo o presente. “... é ao mesmo tempo, no mesmo lance, que nos tornamos maiores do que éramos e que nos fazemos menores do que nos tornamos. Tal é a simultaneidade de um devir cuja propriedade é furtar-se ao presente”. Gilles Deleuze em A Lógica do Sentido.
7. “Uma fotografia sempre se encontra no extremo desse gesto; ela diz: isso é isso, é tal!”, “... a fotografia sempre traz consigo seu referente...” Roland Barthez em A Camera Clara.
8. “Índices são signos que mantem ou mantiveram num determinado momento do tempo uma relação de conexão real, de contigüidade física, de co-presença imediata com seu referente” Phillip Dubois em O ato Fotográfico
9. “... a impressão é um traço que um corpo físico imprime sobre ou em outro corpo físico”. Jean-Marie Schaeffer em A Imagem Precária.
10. “Aparelho é brinquedo e não instrumento no sentido tradicional. E o homem que o manipula não é trabalhador, mas jogador: não mais homo faber, mas homo ludens” Flusser em A Filosofia da Caixa Preta,
11. “... qualquer fotografia é um golpe (uma jogada)... temos objetivos... passamos ao ato, e vemos o que ocorre depois do golpe (da jogada) (do corte). Eis o jogo.” Phillipe Dubois em O Ato Fotográfico.

(...)

Relato pessoal nº2

Continuo servo do(s) aparelho(s), há que se sobreviver na selva, entretanto, um contra-golpe foi lançado, o jogo está sempre em aberto, o “homem dentro do aparelho” deixou sua marca, ponto para a tecnologia humana. Há agora que se decifrar o movimento do placar, e de quantos pontos se constitui uma partida. O que posso afirmar ao fim desse discurso-imagem-poesia é que não se trata de ganhar ou perder, e sim de continuar tentando, pois a arte é um tal fazer “enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer” Luigi Pareyson, Problemas de Estética, 2009.

Hugo Nascimento, estudante e fotógrafo liberto, 2011

(este trabalho participou da 20ª Edição da Mostra CCBEU Primeiros Passos, em Belém, 2011)

9.05.2011

Notas sobre FotoGrafia, SubDesenvolvimento e Gambiarra

Para Schaeffer, a “imagem fotográfica é uma impressão química”¹, pois bem, pode ser que seja, mas se sim, amarramos a fotografia a um produto físico final que desdobra espacialmente um recorte espaço temporal dado no passado... eis a fotografia enquanto relíquia, da qual Barthez fala longamente.

Mas se... fotografia é escrita de luz, com luz, luz-escrita, não deveria ela estar presa a essa obrigatoriedade de eternizar um recorte da fluidez, da mobilidade²...

...Nenhuma escrita pressupõe a eternidade...

Alguém que escreve na areia da praia sabe que tal traço será levado pelo mar, e mesmo na imagem fotográfica, existe uma condição de tempo para a existência da película... o prazo de validade industrial.

Posso condicionar a fotografia à efemeridade. Fazendo do disparador a luz, eliminando o dispositivo fotográfico do processo da escritura... eis a fotografia fora do bidimensional, “aqui a fotografia invade o espaço.”³

Aqui é o Hacklab, 6 de agosto de 2011, onde se deu a primeira experimentação dessa escritura para o efêmero. Como membro do QualquerQuoletivo, fui convidado a fazer a iluminação do evento, e ai vem o desdobramento subseqüente.

Meu disparador é o ascender das lâmpadas, meu enquadramento, seus posicionamentos e a dinâmica da própria cena, em toda sua tridimensionalidade... a foto(luz) permanece enquanto o motivo tece permanentemente a grafia...

...o aparelho foi eliminado...

...foi eliminada a dependência sufocante da tecnologia, torna-se consciente uma fotografia invisível, a de todo momento, a que se desenrola sem ser captada. Sem o aparelho, o homem é obrigado a reconstruir o fazer, e ai, “a gambiarra vira força criativa”³.

Do lixo luz... não era exatamente esse o discurso mas assim foi pra mim a oficina Devoluções ocorrida no Casarão, se a idéia era transformar lixo em produtos, o fiz em equipamentos, criando os dois primeiros dispositivos de luz... holofotes do lixo, canos de esgoto, madeiras da rua e fios elétricos, esses da loja, compõe a estrutura... eis “a potência do subdesenvolvimento em desvirtualização” ³.

Man Ray, quando dadaísta, criou suas rayografias a partir de uma negação as técnicas estabelecidas historicamente... pois bem, não necessariamente contra história, mas sim contra a arte feita de cima para baixo da qual fala Barrio, elimino o aparelho, elimino o laboratório, o cordão umbilical tecnologico é cortado, a metodologia fica em aberto...


...fotografia não é registro!


1 – Schaeffer, Jean-Marie. Imagem Precária A. Papirus, 1996.

2 – “A verdade é que mudamos sem cessar e que o próprio estado já é a mudança”... ”uma fixidez não passa de um arranjo efêmero entre mobilidades” Bergson, Henri. Memória e Vida. Martins Fontes, 2006.

3 – Meu via Qualquer Quoletivo publicado em http://hacklab.comumlab.org/wikka.php?wakka=DiariodeBordoQQ em 06/08/2011


(anteontem)

+ sobre fotografia e efemeridade


video

Queria falar um pouco sobre o trabalho da artista visual Miwa, que chegou até mim esta semana, período gestativo das idéias acima descritas. A cerca da fotografia dentro do espaço-agora, que não desdobrasse o tempo mas participasse da construção do próprio estado presente, sem objetivar o registro, priorizando a fala...

...expressão poética para o agora.

Miwa se apresentou esse ano, 2011, na XX edição do Animamundi, claro, em São Paulo. Em Belém, pude ver o registro dessa apresentação em vídeo, disponibilizado por Maécio Monteiro, ao qual, sou muito grato por isso.

Miwa, em sua apresentação, estabelece interações corpo-videografica...

1) Miwa, se posiciona entre a luz do projetor, e a tela...

... a tela não está emulsionada.

Se estivesse, teríamos uma impressão transversal, como nos fotogramas diria Schaeffer, ou mesmo, uma impressão de traços do visível (por Dubois). Teriamos uma imagem fotográfica...

... o que tento afirmar nesse texto... é que temos fotografia em Miwa.

Todo o processo é análogo ao dos fotogramas. A luz escreve a obra...

2) Luz, tela e Miwa. O que caracterizaria uma sobreposição de imagens, neste caso feita a partir da sobra de luz que atravessa a tela branca para desenhar a silhueta do corpo.

Claro, é uma obra audiovisual, temos a trilha, elogiável, temos o movimento corporal da artista, e temos todos os componentes imagéticos-estéticos da projeção, possiveis a partir de variações de iluminação efetuadas pelo projetor, que é o aparelho, neste caso.

Miwa não fez um trabalho fotográfico.

Não reduzo o trabalho dela a isto.

Miwa fez um trabalho que é fotografia.

Fotografia não é a imagem fotográfica!


(ontem)



5.20.2011

Quem Matou? Quem Morreu? Quem Colou?

... a Violência como Plano de Fundo





Em 69, Arthur Barrio, defendia em manifesto a utilização de materiais baratos em contraposição as produções do sistema de arte oficial, estabelecido a partir de interesses econômicos, logo, centralizado nos Estados Unidos e na Europa. Como Barrio, o cenário que me cerca, que cerco, que respiro, é o terceiro mundo, especificamente Belém do Pará, cidade a margem do processo da globalização, onde se convive com todos os problemas das grandes metrópoles sem usufruir de suas pseudo vantagens.


Qual a saída para uma arte que se pretende para o mundo, e não mais para o mercado, que tem como alvo não mais o público intelectualizado, mas o povo, o todo? Como criar um discurso com volume e impacto social quando os recursos necessários para uma emissão amplificada são escassos?


Como Barrio, Hélio, Glauber, dentre outros, (re)visito essas perguntas. Para a primeira, minha resposta é a rua. Para a segunda, a xerox.


Evoco o medo, essa patologia coletiva, que, seja pela violenta verdade ou pelo sensacionalismo dos meios de comunicação, se instalou e assombra a cidade. Coloco a violência da rua na rua, no horizonte da cidade, para que todos vejam aquilo que todos sentem. Retiro a fotografia do espaço hermético das galerias, da parede do burguês, e a coloco na textura da cidade, na parede dos transeuntes, chego ao povo e democratizo a experiência estética.


A Xerox é a caixa amplificada do discurso. Do auto-retrato digital, retalho a imagem em vinte folhas de a4, e alcanço dimensões reais dentro das possibilidades do bidimensional a um preço que não prejudica meu aluguel, assim, posso multiplicar meus pontos de inserção. A repetição do gesto (colagem) aumenta o volume da fala e a potência da obra.


É um homicídio. É uma contravenção. Um corpo iluminado assassinado em uma noite escura. O corpo é (m)eu. Que cola, que fala e se marginaliza a partir do falar. Quem sabe numa dessas madrugadas de colagens levo mesmo um tiro. Seria “o cumulo da metalinguagem”, o início e o fim da minha arte-vida.





para ver mais - http://www.flickr.com/photos/14486460@N06/sets/72157626612969259/